sábado, 26 de junho de 2010

In a manner of speaking ~





O silêncio é esmagador e deixa-me ilesa. O que sinto é frágil e é meu mas as minhas omissões equivalem a mentiras perante as quais estou cada vez mais impotente. Hoje , refugio-me nas palavras para confessar, sem pudor, que já não me bastam palavras. Já as esgotei, já tas dei, já mas levas-te todas no momento em que vi, finalmente, o quanto sou invisivel. No final, fiquei sem nada. E á espera do nada que não vem,já não anseio por falsa simpatia e estou cansada de eufemismos, porque esses vendaram-me os olhos e pintaram-me os lábios de vermelho.
Não conhecemos tudo e ninguém se deixa conhecer , na essência, tal e qual como é. Só percebemos o que vemos, tal e qual como queremos, e até isso é influenciado por momentos em que, por segundos, faço de conta que tenho a minha verdade e que estou de mão dada com a  minha liberdade.
Enquanto os gestos tiverem uma linguagem universal o meu esconderijo nunca vão ser frases e letras banais, que podem ser mais cultas mas não são mais genuínas, e até eu mesma sou incapaz de  fazer uma tradução justa e fiel.  Assim, abraçar um amigo é dizer que vamos estar presentes naqueles dias maus, dançar é expressar através do corpo o que o coração sente, cantar é querer arrancar sorrisos, tocar no braço é pedir atenção,  beijar o pescoço é o mesmo que susurrar que se deseja a pessoa amada.  Podem até ser só fracções de pequenas coisas, simples, sem arte ou engenho algum, mas, ao mesmo tempo especiais o suficiente para mudarem o dia e a vida de alguém que também seja especial o suficiente para as agarrar e não as querer desperdiçar. Não me querer desperdiçar.
Um pouco mais de alma enquanto encontro o meu próprio jeito de dizer tudo sem dizer... absolutamente nada.

quarta-feira, 16 de junho de 2010



" Tudo o que dorme é criança de novo. Talvez porque no sono não se possa fazer mal, e se não dá conta da vida, o maior criminoso, o mais fechado egoísta é sagrado, por uma magia natural, enquanto dorme. Entre matar quem dorme e matar uma criança não conheço diferença que se sinta. "


Gostava de hoje, por um dia que seja, suster a respiração e voltar a ser criança, outra vez. Só mais uma vez.
De regresso aos contos de fadas que nunca quis deixar de acreditar, á ilusão que teima em permanecer em mim, e ao mundo de algodão, em que todas as pessoas são transparentes e não carregam maldade.
Não há dor. Em parte, porque também não há amor. Só sonho e fantasia. Não se equacionam sentimentos, vivem-se. Não há obrigações, há só desejo. Não há medo, porque não há armadilhas onde cair.
As sabrinas de pontas de uma bailarina e uma já perdida caixinha de música a tocar, levam-me até ao sotão da minha mente , onde quadros a oléo empoeirados exibem retratos de uma menina que teve de dizer adeus antes do tempo. Fitas de seda cor-de-rosa atam estes dois patamares que ficam ténues de cada vez que sorris, simplesmente, da forma mais pura que já vi e como mais ninguém sabe fazer. Quando te olho, orgulhosa, da-me uma vontade tremenda de conseguir sorrir com esse mesmo significado.
Preserva a tua inocência o máximo de tempo que conseguires,porque nunca ninguém devia de apagar o que todos nós, TODOS, temos de mais... doce! :)


( Para a Joana, que será sempre a minha boneca. ) *

domingo, 6 de junho de 2010

*

Voltei ao meu labirinto. Fui ingénua o suficiente para acreditar que, tão cedo, ia encontrar o caminho certo, chegar á meta, á saída tão esperada. Em vez disso, estou de novo, no centro deste jardim gigante e tenho uma série de rumos á escolha e setas que chamam por mim, nas mais variadas direcções. Fecho os olhos e respiro. Paira um aroma doce a jasmim aqui, os ponteiros do relógio pararam e estou envolvida num silêncio submerso.
Recordo-me, por momentos, do quanto já ri ao lançar moedas ao ar e do que já apostei, por mera diversão. Ignorei cálculos, esquemas e probabilidades e deixei-me guiar por instintos e por intuições. De todas as vezes que fui louca, essa loucura foi paz.
Assim, a vida acaba por ser este jogo em que lançamos dados ou uma roleta russa onde nunca sabemos se temos e se somos ou não o número certo. Eu ainda não sei qual o meu número, o número que dita os meus valores e os meus pecados, os sorrisos que ofereci e as lágrimas que culposamente causei a alguém. Confiei que quando cá voltasse ia ser mais perspicaz para não ter de me entregar e de me vender ao destino, á sorte e ao acaso. Agora, aqui, temo as consequências de abrir a porta errada ou do que me espera do outro lado do muro. A chave que carrego comigo oferece-me um rol de possibilidades, tantas, que é duro ter de escolher e é dificil fazer esta travessia sem pisar nenhum obstáculo ou sem cair em alguma armadilha. Faço por ser prudente e cautelosa, enquanto que, aos teus olhos, não consigo transparecer mais do que a minha falta de destreza e o meu excesso de medo. Não te julgo, talvez eu não seja realmente especial que chegue. Talvez eu escolha a carta errada do baralho. Talvez a minha sina seja ficar presa aqui, no centro do labirinto, para sempre.
Mas, enquanto sei que é um enigma que tem de ser desvendado apenas por mim, e que é impossível atravessar um precipício em pontas dos pés, continuo a percorrer este espaço e a perder-me, umas vezes sem querer, outras vezes propositadamente. Afinal, as decisões mais sem sentido acabam por ser as mais correctas. Por isso, vou (sempre) aonde me leva o coração.