terça-feira, 20 de julho de 2010

To give.



Desceu sob os paralelos da rua dos sós, durante a madrugada já longe, debaixo do olhar atento das estrelas e da lua cheia. Era demasiado tarde e demasiado cedo para chegar a casa, não sem antes desaparecer só mais um pouco, mas esta noite, ela não se deixa contagiar. Caminha sem pressa porque nada a espera, e de forma que só consegue ouvir o som dos sapatos, sentir o respirar sereno e ver a linha do horizonte e o contraste das luzes da cidade no rio.
Embrulhada num manto de força, é tão fraca que só desvenda os cabelos compridos que caem em cascata sob os ombros magros mas num jeito tímido tapa-se logo a seguir. Quer uma alma perfeita a exteriorizar um corpo perfeito ou mais vale nem dizer o nome. Escrava do seu próprio esconderijo, não a ensinaram como se faz para cuidar e como se morre só a abraçar.
Não expõe as mãos vazias sem ter como contrapartida algo em troca nem dá sem ser por obrigação. Negoceia a venda de ilusões e expectativas com quem jura oferecer mais garantias. Movimenta-se sempre numa zona segura como se estivesse constantemente a pisar um campo de minas. Procura o conforto, não sente o chão descalça e sem ser com almofadas.
Como uma boneca de porcelana é pálida porque foge do sol, e frágil ao toque porque parte com facilidade. Quebrada, já não é completa e nunca ninguém vai querer perder tempo a unir os cacos.
O pierrôt apareceu hoje, para depois de ouvir as pulsações dela lhe dizer que um coração em branco não pode correr riscos. Trouxe tulipas brancas, inspiração, e disse-lhe que todos ficamos mais bonitos quando nos mostramos e não usamos maquilhagem. Ele nunca saberá mas interiormente ela desejou ser como ele.
A viver em contradição, sabe que a magia só aparece para quem acredita em ilusionistas, só pode querer confiança quem também confia, só recebe quem também é corajoso para dar. E saber dar é saber dividir emoções, multiplicar alegria e partilhar canções.
Num rodopio, seguir sem olhar para a bússola e não procurar os pontos cardeais faz com que o choro não seja tantas vezes escondido e um gemido tantas vezes contido.
Cinco minutos de tudo quando te deixas desmoronar.... e te dás.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Fé.



Um dia, volto a ganhar fé, mas, de momento, é impossível acreditar que existe um Deus, bondoso e omnipresente. Acredito mais rápido num homem, tão defeituoso quanto eu, que nos olha a todos de um pedestal , satiriza com a dor e a doença  dos inocentes e leva ao colo os pobres de espiríto. A seguir lados opostos, tu por x, eu por y.
A necessidade de ter uma explicação para tudo e o conforto que dá justificar o inexplicavél leva a procurar e a confiar no transcendente só porque tudo o que é grande, normalmente, é tudo aquilo que não conseguimos sequer definir.
Esta noite, sonhei que para me castigares pelo meu atrevimento, me roubavas a voz. Chamava (sempre chamo) por ti, nas horas amargas e berro em plenos pulmões. Finges que não me reconheces os traços do mesmo modo que fazem as pessoas na rua quando estão demasiado atarefadas para quererem dar cinco minutos e um bom-dia a alguém. Encolhes os ombros e dás uma bofetada a todos os que, como eu , sentem-se mais seguros ao pôr a vida e a morte, juntas, nas tuas mãos. Mas sabes bem que muda, e até um tanto mutilada, ainda tenho os meus olhos que pedem respostas, ao mesmo tempo que te ofereço a outra face para esbofeteares também. Não te admires porque é muito mais contra os meus príncipios mostrar apatia do que mostrar alguma revolta. Algum amor.
Hoje não te dá jeito ouvir, hoje não te dá jeito ajudar, hoje não te dá jeito abrir os braços, um pouco que seja. Cansa, exausta, dá-te muito trabalho.
Pequena demais para ser tolerante e ciente demais para ser sempre tão impaciente, não há onde me esconder a não ser na verdade, nua e dura, que não é mais do que o espelho do meu pavor pelo preto. Não espero por recompensas nem por ver as minhas preces reconhecidas, mas sim, espero por alguns sinais de que nada foi, não é, nem vai ser em vão. Entretanto, as minhas borboletas fotografam e gravam na minha memória imagens dos risos, do jardim, da bicicleta gasta, das peças de dominó e do xadrez que eu tanto insisti para aprender. È isto que os optimistas fazem, não são mudos mas fazem por ser cegos. Deixam-se levar pela nostalgia em vez de enfrentar a decadência.
Velas acesas para que numa espécie de milagre da medicina, se existes, te mostres e logo a seguir te vás embora sem tocar num fio que seja dos nossos cabelos.
O meu Deus são todos os meus anjos que são bem mais reais e autênticos do que as tuas promessas e as tuas políticas tão distantes e impenetravéis. Eles são perpétuos, são imunes, fazem parte do meu pequeno céu e tornam tudo á minha volta sagrado. Deixa o retrato tal e qual como está e pára, de uma vez por todas, de nos cortar as asas.