quarta-feira, 20 de outubro de 2010

L'huo provatto sulla mia pele *

Saio de mim para me sentar a esculpir e a moldar o que um dia virá a ser a minha estátua enquanto lábios selados dizem o meu nome como se me fosse estranha.  Enquanto mãos nervosas, um olhar agitado se entrecruzam  na expressão descontrolada do coração, agarro pinceladas da arte do meu jeito irrequieto e apaixonado,dificil de esconder. Risadas de outras danças que fiz, curvam-se para emoldurar a tela que repousa já no chão e as manchas que se alastram pelas paredes deste quarto vazio e se confundem com as marcas pesadas do que já foi, as saudades do que nunca chegou a ser e a alma leve para o que ainda está para chegar.
Nâo estou debruçada a olhar para os pontos de interrogação que aparecem com a sensatez e me querem roubar sem sucesso, antes faço um esforço para, pondo de parte todos os teoremas, dar de caras com as palavras incorrectas que sem querer escolhi e as atitudes que não tive o sangue frio para tomar. Conheço as minhas falhas melhor do que as minhas virtudes, até ao ponto de ser capaz de as enumerar a todas e descrever a razão da incompreensão que mas fez proferir. Nesse segundo, sou fraca ao ponto de me ajoelhar e pedir para que, ainda que de vez em quando, a vida nos deixe desenhar com uma borracha que apaga numa só passagem a desilusão e reforça a alegria que guardo cá dentro.
Num murmúrio, peço-te para fechares a porta, dares a volta á chave e assim silenciares as vozes e as sentenças do mundo, deixando os gritos mudos que me inundam o adormecer, do outro lado da escuridão. Quando te aproximas, já mergulho na minha imagem pairada sob este poço fundo que espelha o meu reflexo impávido e sereno á verdade assustadora que acabei de enfrentar e me curou da cegueira. Páro, desiquilibro-me para trás e abro os olhos, com o rosto ainda molhado mas a paz de quem agora se conhece melhor e se aceita, com lágrimas que são de alívio. Convido-te a ir buscar a liberdade para fazer o mesmo só para no momento a seguir te poder dizer com um sorriso ' Bem vindo a ti. Bem vindo a ti, mais uma vez'.Para encher este quadro de cor, antes tive de saber o que era a dor. Para ser capaz de retratar um amanhecer, antes tive de me ver amanhecer. Assim, esta noite, deixei o quadro ao relento e deitei-me com a esperança de que a chuva desgaste riscos que traçei sem dever e a tinta escorra pelas ruas em que já me perdi e fui feliz .
Amanhã, todos fazemos de conta que somos telas em branco prontas a serem pintadas com as cores mais autênticas e reais que a vida,quando a amamos, consegue oferecer. Amanhã, os sonhadores não são obrigados a acordar, só porque amanhã... tudo ganha sentido.